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Fábio Puentes fala de hipnose e atravessa agulha em pescoço de aluno

>> 19 de novembro de 2009

Texto e imagens por
Flavia Borges


Bem humorado e dinâmico, o hipnólogo uruguaio Fábio Puentes palestrou nesta terça (17) para alunos de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) demonstrando seu trabalho ao vivo com voluntários da platéia.

O encontro de quase duas horas ocorreu no auditório do Bloco O da UFF, no campus Gragoatá. Fábio Puentes falou sobre os preceitos da hipnose e de seus trabalhos terapêuticos em equipes multidisciplinares (com médicos, psiquiátras e psicólogos).

O hipnólogo estava acompanhado da psicóloga Samantha Moreira, uma das profissionais que atendem no Centro Multidisciplinar da Dor, clínica localizada em Botafogo (RJ), onde Fábio faz consultas quando está no Brasil. Samantha também utiliza técnicas da hipnose em psicoterapias, já que, de acordo com Puentes, o Conselho Federal de Psicologia (CRP) liberou a utilização desse procedimento recentemente.

Dentre as várias aplicações da hipnose estão desde programações para lagar vícios até sugestões para aliviar dores crônicas. No entanto, Puetes explica que a hipnose não cura patologias de origem fisiológica, apenas alivia sintomas.

"Para a dor, a hipnose é 95% efetiva, mas não cura nada. Tem que ter cuidado para a hipnose não mascarar a dor", enfatiza o hipnólogo. Ele ainda deixa claro que é importante que o profissional não programe nada no paciente que possa atrapalhar o diagnóstico de doenças pelos médicos.

O interessante na hipnose, para Puentes, é a rapidez que a técnica concede à solução dos problemas. Enquanto a psicoterapia e tratamentos medicamentosos demoram para fazer efeito, a hipnose dá alívio instantâneo. Entretanto, há casos em que o trabalho conjunto com a psicologia é
fundamental, já que o efeito hipnótico não dura para sempre.

Depois das primeiras explicações e relatos de suas experiências, Fábio Puentes fez algumas demonstrações com alguns de seus espectadores.

Algumas pessoas, mais sugestionáveis que outras, foram colocadas em transe e acataram as sugestões do hipnotizador. Dentre as experiências, uma voluntária ficou muda após um comando de Puentes e outra não conseguiu abrir os olhos. Um rapaz, depois de sugestionado a não sentir nada e contrair vasos sangüíneos, teve uma agulha atravessada pela pele do pescoço sem dor nem sangramento.

Para finalizar, Fábio explica que para mudar uma conduta, ou seja, controlar sempre um comportamento, é necessário que a programação mental se repita. Para isso ele sugere que a pessoa se beneficie da prática da autohipnose.

Puetes pratica a hipnose há 40 anos e é famoso no Brasil por suas aparições em programas de TV, como SuperPop (RedeTV) e Programa do Jô.

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Homofobia Cristã

>> 24 de outubro de 2009

*Este post não é criminoso, mas vai deixar algum cristão ofendido. Quer apostar?!


Hoje recebi um daqueles emails de corrente pedindo um abaixo assinado ¬¬

Dizia o seguinte:

"O filme intitulado 'Corpus Christis' (O Corpo de Cristo), que vai sair em breve na América do Norte, mostra Jesus mantendo relações homossexuais com os seus discípulos. A versão teatral já se apresentou. É uma paródia repugnante de Jesus.
Uma ação concentrada da nossa parte poderia mudar as coisas. Você aceita juntar o seu nome no fim da lista?
Em caso afirmativo, poderíamos evitar a projeção deste filme no Brasil e até em outros países. Este filme nega a verdade da Palavra de Deus.
PRECISAMOS DE MUITOS NOMES em adesão a esta proposta para evitar a exibição do filme.
Na Bíblia está escrito: "Quem me confessar diante dos Homens, Eu o confessarei Diante de meu Pai, que está nos Céus."(Mt 10.32). "Mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus."(Mt 10.33)"

Ok.

Antes de mais nada, para cortar o barato, trago a boa nova a todos os cristãos dizendo que esse filme não existe. Esse email é o que chamam de hoax, é falso, história fake! Mas isso nao vem ao caso!

Essa é uma historinha que roda na rede há algum tempo. A lista que recebi, por exemplo, tem 651 assinaturas (sic).

Agora eu pergunto: e se Jesus Cristo foi realmente gay? Qual o problema? Tal postura cristã não parece uma clara confissão de homofobia? Eu acho que homofobia já é um belo (?) motivo pra fazer alguns filhos do senhor arderem nas labaredas do inferno... Afinal, precisamos amar uns aos outros! :)

De fato, esse enredo já foi encenado na Brodway (peça onde os apóstulos eram homossexuais) e é considerada pelos fanáticos como anticristã. Ora, é anticristã porque não é uma versão fiel do confiável (sic²) livro chamado Bíblia Sagrada.

Todos esses religiosos pragmáticos desconsideram, no entanto, que na arte existe a mão divina da criatividade que reformula e reiventa ao bel prazer histórias (inclusive as que julgam intocáveis e sacras) ja conhecidas em nome do entretenimento. Se chama adaptação.

Ora, a arte não é algo sujo e novo como se pensa, o próprio livro sagrado cristão é fruto de uma arte chamada literatura (sério?), configurada em suas diversas formas: na Bíblia você encontra poesia (Salmos...), prosa poéticas lendas fábula, parábola etc etc, mesmo que tais interessantes obras nunca sejam assim aceitas pelos fanáticos. Aliás, fanáticos nunca se aceitam como fanáticos. Ninguém nunca aceita nada, é terrível!

Voltando ao assunto Jesus-supostamente-gay. Fico (ingenuamente) desconfiada de tanto incomodo com uma insinuação sobra a sexualidade de Jesus. Parece que esse povo que assinou ao hoax pensa "opa, Jesus não tá aqui em carne pra se defender... tão chamando ele de viado, não posso permitir que meu senhor seja chamado de viado, vou defender a virilidade dele! Jesus é macho, porra!". ¬¬

Já pensou se Jesus não é preconceituoso? Que mania é essa que temos de defender os outros sem saber se eles mesmos estão ofendidos? Aposto que ninguém ligou/orou/rezou pra Cristo e perguntou se ele realmente era gay ou se se ofendeu com a peça ou com o email fake...

De qualquer forma, esse email e todos os que com ele ficaram escandalizados só me confirmaram uma coisa: religião prega o preconceito, não prega o amor. O discurso oral é de amar, de ser solidário, de ser justo e bom. Mas a moral indireta é de odiar e repudirar tudo o que está fora do livro cristão, as diferenças, a inteligência independente, as novas formas de amar e o bem que a aceitação traz em prol da harmonia da convivência social.

Religião prega o preconceito, ainda que veladamente.
Religião não é coisa de Deus.
Tem gente que se escandaliza com as coisas erradas...
Falta de um tanque pra lavar roupa.

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Volta

>> 23 de outubro de 2009

Nos últimos dias tenho um pensamento constante: quero escrever. Mas caio na armadilha de sempre: quero escrever sobre tudo e não faço absolutamente nada.

Tenho me apresentado como escritora, mas meu discurso tem me incomodado, porque faz tempo que não crio nada, nem uma rimazinha sequer. Já não sei mais o que sou.

Pensei em criar novos blogs -sem matar este, evidente! Criar um blog pra falar de meus trabalhos jornalísticos. Criar um blog pra falar da minha vida , meu cotidiano com suas bizarrices -esse é o pensamento mais complicado de aceitar. Criar um blog pra falar de minhas experiências acadêmicas na Psicologia. Criar, criar, criar, só devaneio, porra nenhuma eu faço! ¬¬

Minhas idéias não são de todo mau, eu só quero voltar a me expressar, coisa que venho tentando fazer há tempos (e sempre prometo!).

Meus livros? Mofaram dentro do HD!
Contos, poesias? Ora, perdi a receita!

Continuo pensando melhor e me pergunto: pra que fazer tantos blogs, se nem dou conta de um?! E se já existe o Fuga de Palavras, que nem sei se ainda tem leitores, para que ocupar mais espaço inútil no universo cibernético? Não seria mais sensato enfiar tudo nesta página mesmo? Qual o problema?

E me perco nesse incessante ciclo de perguntas, respostas e novas dúvidas. Coisa idiota, escrever que é bom, necas!

Ainda não sei muito bem o que fazer, acho que só precisava começar de alguma forma. Neste blog há um menu onde posso separar os assuntos por categoria... Talvez seja hora de reativar o Fuga de Palavras como o espaço para TODOS os meus devaneios, mas agora de forma periódica, igual àqueles blogueiros-jornalistas-famosos-que-ficam-o-dia-inteiro-postando, muito embora eu já não seja a internauta vagabunda de outrora (o que é bom, porque a vida lá fora, triste como é, me inspira...).

É, talvez seja por aí mesmo...

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REDAÇÃO vs. ACADEMIA: Comunicólogo, com muito orgulho

>> 29 de setembro de 2009

Excelente texto de Fábio Henrique Pereira, publicado no Observatório da Imprensa em 07 de novembro de 2006.



Já faz uns seis anos que escolhi a vida de pesquisador. Se eu fosse uma pessoa sensata, teria escolhido ser antropólogo, sociólogo ou cientista político. Mas, como eu tenho um instinto de autoflagelação, resolvi estudar o jornalismo. Infelizmente, a comunicação e o jornalismo em particular constituem campos do conhecimento relativamente negligenciados no quadro da pesquisa científica no Brasil. Como fenômenos sociais, possuem uma importância vital nas sociedades contemporâneas. Como objeto de pesquisa sofrem o menosprezo do governo, das agências financiadores, dos demais pesquisadores em ciências sociais... E dos próprios jornalistas!

É triste ver quando um jornalista trata com desdém as pessoas que buscam lançar um olhar crítico e analítico sobre as suas práticas. É doloroso ver o tom de desprezo quando ele se refere a nós, da academia, como "comunicólogos". Nesse caso, a palavra traz uma carga simbólica forte. "Comunicólogos" são os indivíduos que nunca foram jornalistas e que ficam emitindo opiniões descabidas sobre algo que não conhecem, do alto de suas torres de marfim.

Seria melhor atribuir ao "comunicólogo" o mesmo estatuto de outras carreiras mais "nobres" das ciências sociais como o sociólogo, o antropólogo, o psicólogo, o politólogo etc. O reconhecimento de um campo do conhecimento reflete a legitimidade que o seu objeto e os seus praticantes têm na sociedade. Só existem politólogos porque, em algum momento, os fenômenos políticos e os atores envolvidos neles adquiriram relevância social suficiente para que houvesse a necessidade de uma disciplina exclusiva dedicada a seu estudo.

A emergência de uma disciplina reflete ainda as disputas na comunidade científica visando reconhecer e legitimar esse novo campo. A criação da comunicação é a "vitória" de um grupo de indivíduos que conseguiu provar que as especificidades e a relevância do campo coloca o estudo das mídias como algo maior do que uma simples subárea da sociologia. Por isso, eu tenho orgulho de ser chamado de comunicólogo. Na verdade, eu gostaria que me chamassem de "jornalistólogo", mas ainda é cedo para esse tipo de neologismo. Espero que a Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo lute para que isso um dia aconteça.
Justificar
Competência e interesse

Um segundo ponto a ser questionado é a crítica que desqualifica a priori o comunicólogo sem experiência em redação. De forma análoga, significaria dizer que, para ser considerado bom pesquisador sobre o consumo de cocaína, seria preciso ter sido usuário dessa droga. Ou que, para se especializar no estudo dos efeitos do HIV seria preciso ser soropositivo. Ora, pesquisa e prática são atividades distintas. Podem ser conciliadas, é claro. Podem e devem dialogar entre si. Mas uma coisa não é pré-requisito da outra

O mais irônico é que os jornalistas são, por princípio, especialistas na arte de falar das atividades alheias. Um jornalista cobre o Congresso sem nunca ter sido eleito deputado federal ou ter trabalhado na Câmara. Inclusive, esse distanciamento com relação ao "objeto" é um dos princípios que legitimam a profissão. Por isso, é difícil entender por que certos jornalistas se recusam a ser observados "de fora".

Para ser cientista é preciso competência e interesse no tema, mas sobretudo, conhecimento de campo. Aqueles que vêem os comunicólogos como indivíduos alheios à realidade da mídia demonstram total desconhecimento do trabalho de pesquisa em ciências sociais. Todo cientista deve se amparar em teorias. Mas é essencial reunir e analisar dados, estatísticos ou qualitativos – o bom pesquisador deve buscar in loco elementos que lhe permitam compreender um fenômeno. Para isso, ele se utiliza de técnicas, algumas delas, por sinal, bem "jornalísticas", como entrevistas, pesquisa documental, observação etnográfica etc.

Duas realidades

Jornalistas e pesquisadores enxergam a sociedade de forma diferente [Sobre o assunto, ver O segredo da pirâmide, de Adelmo Genro Filho, disponível em www.adelmo.com.br]. E isso explica, em parte, as reações de certos jornalistas quando sua atividade aparece retratada por algum acadêmico. Os jornalistas enfatizam os eventos extraordinários ou de relevância política e social. Um fato jornalístico precisa ter impacto, os jornalistas quase nunca se interessam pela banalidade do quotidiano.

Um pesquisador busca entender e explicar a sociedade. Para isso, ele se prende justamente ao que é comum ao dia-a-dia das pessoas. O extraordinário deve ser descartado ou analisado numa perspectiva que lhe permita enxergar os processos que resultaram na ocorrência desse fenômeno.

Numa rua os jornalistas prestam atenção aos acidentes. Os pesquisadores, no fluxo dos carros. Numa ação policial, os jornalistas se interessam pelo número de mortes e prisões. Os pesquisadores, nos fatores sociais, históricos ou psicológicos que explicam a violência urbana. É como se os dois personagens vissem uma mesma cena de ângulos diferentes. Duas realidades distintas são construídas a partir de um mesmo evento.

Dois olhares

Quando um pesquisador escreve algo sobre o jornalismo é comum observar duas reações. Para alguns jornalistas, a pesquisa acadêmica serve para reafirmar o óbvio. Para outros, demonstra a ignorância do acadêmico com relação ao assunto analisado.

Eu, pessoalmente, já sofri as duas críticas. A primeira, como disse, explica-se pelo desinteresse do jornalista por assuntos "banais". Os jornalistas acham desnecessário analisar o que acontece numa reunião de pauta, por exemplo. Eles vivem isso todos os dias. O problema é que, ao "neutralizar" os eventos do seu quotidiano, eles acabam negligenciando as significações sociais neles implícitas. E, quando as coisas explodem os jornalistas são incapazes de dar uma resposta eficiente às crises profissionais.

Por exemplo: certos jornalistas podem banalizar a onda de denuncismo que tomou conta da imprensa política no Brasil. É algo que parece "natural" à prática jornalística nos dias de hoje. Mas essas coisas podem terminar mal: erros irreparáveis, crise de credibilidade da imprensa, declínio no número de leitores etc. E aí, em vez de olharem para os próprios umbigos, alguns chefes da mídia preferem demitir profissionais e contratar empresas de consultoria. O que, obviamente, não resolve muita coisa.

Diálogo produtivo

A segunda crítica, aquela que tacha o pesquisador em jornalismo como um ignorante falastrão, é mais séria. Porque ela reflete um certo rancor e um desrespeito pela vida universitária, o que me parece totalmente descabido. Se somarmos o tempo de conclusão de um curso superior, mais mestrado e doutorado, descobriremos que é necessário, no mínimo, dez anos para se formar um pesquisador. Dez anos para ser foca no meio acadêmico! Ora, é absurdo chamar alguém que se submete a tudo isso de incompetente. Chega a ser vil, porque pesquisador no Brasil costuma trabalhar muito e ganhar pouco. E continua fazendo isso por uma paixão incondicional por seu trabalho e seu objeto de pesquisa. E ainda leva desaforo para casa.

Eu não passei tanto tempo estudando jornalismo por rancor ou frustração. Eu realmente gosto dele enquanto objeto de pesquisa, da mesma forma como muitos jornalistas são apaixonados pela profissão. E acredito que, apesar das diferenças, jornalistas e pesquisadores têm a ganhar com o diálogo. A boa ciência não se fecha em verdades absolutas. Ela é, por princípio, um processo permanente de desconstrução e reconstrução de seus preceitos. Daí a necessidade de se abrir para fora do mundinho acadêmico.

O mesmo serve para os jornalistas. O enriquecimento mútuo do campo e da profissão deveria estar acima de corporativismos e bairrismos profissionais. Todos deveriam ter orgulho de ser comunicólogos.

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Ética utilitarista na prática do Jornalismo

>> 25 de setembro de 2009

Flavia Borges


O conceito da ética utilitarista, quando fala em coletividade, está um tanto atrelado ao Estado democrático que prevê o estabelecimento da vontade da maioria. Teoricamente, põe de lado o caráter egoísta das decisões e celebra o bem estar do coletivo. No jornalismo, a ética utilitarista é a orientação tomada como a mais coerente na execução da profissão. Aparentemente é muito justa. No entanto, a realidade prática tem mostrado que entre o discurso e a ação há um profundo abismo. Até mesmo porque tal conceito de ética dá margem para muitas atitudes, às vezes estranhas, que poderão ser justificadas sem nenhum constrangimento caso o fim seja o melhor para o coletivo. Por isso, é bom que antes de tudo, interpretemos sua constituição.

Vamos destrinchar o apontamento: “A ética utilitarista justifica os meios quando os fins são expressos por usufrutos coletivos”. Isso significa que desde que os resultados sejam bons para a maioria (tome como “coletivo”, pois o que tomamos como “coletivo” quase nunca é “todos”, de fato), não importam os meios que se utilize para chegar ao fim, pois tudo que é feito para um fim positivo de forma generalizada é justificável. Na prática, atentemos como a expressão “os fins justificam os meios” é algo perigoso. É como se todas as ferramentas e atitudes fossem aceitas desde que façam bem para a maioria no final. E se houver uma minoria, digna de respeito, atingida, continua tudo correto. Obviamente, é um método que se pauta em outra expressão: “não se pode agradar a todos”.

Seguir estritamente essa linha é viver como Robin Wood, roubando dos ricos para satisfazer a massa pobre. Não importa roubar neste caso. Roubar passa a ser bom e correto. E não importa se por acaso o benfeitor da fábula roube alguém rico, digno e merecedor do que tem, afinal ele é minoria e precisa perder para agradar a maioria. O utilitarismo, pensado filosoficamente, chega a ser algo complexo em si mesmo, pois ao mesmo tempo em que assume um caráter mais livre na ação (toda ação é justificável), fixa-se numa regra, numa condição (a de sempre agradar a coletividade). E é exatamente nessa regra fixa que peca, porque há exceções, nem sempre o correto no momento será agradar a maioria.

Não se pode negar, no entanto, que a postura utilitarista trouxe inúmeras conquistas ao bem estar coletivo da humanidade ao longo da História, desde que foi sistematizada por Jeremy Bentham e John Stuart Mill. De forma alguma aponto a busca do bem estar coletivo como algo ruim ou sem mérito. Aponto apenas as lacunas que este conceito aplicado à ética do jornalista pode acarretar. Sabemos que há casos e casos, e a avaliação ética em cada um deles, respeitando suas especificidades, é primordial.

Parece-me arriscado buscar o bem coletivo, servir à sociedade, utilizando uma regra que lhe abre indiscriminadamente um leque de ações, de qualquer natureza... É arriscado porque essa permissividade nas mãos de desafortunados dá margem a muitas barbeiragens que num segundo plano beneficia, na verdade, a poucos (como no jornalismo sensacionalista e mercadológico). Ou seja, pode-se tudo, não há limites. Reza-se então para que se tenha bom senso na hora de se escolher a metodologia para conseguir uma notícia, por exemplo... É na ética utilitarista que se encontra brechas para a atuação selvagem do jornalismo.

Por que negligenciar a minoria, no jornalismo, na política, na sociedade, não deveria ser REGRA? Porque há momentos de exceções, onde nem sempre o cabível consistirá no bem estar da maioria. Mesmo que isso cause espanto, pode acontecer e não necessariamente estar veiculado com corrupção ou omissão de informação. Há casos, por exemplo, que podem ferir a integridade ou privacidade de alguém em troca do “serviço” ao coletivo. E o conceito de “serviço” prestado pelo jornalismo também é questionável. Mais precisamente a relação entre proporcionar bem-estar e prestar um serviço à sociedade. Nem sempre divulgar determinada informação é prestar um serviço. Saber que um homem seqüestrou, assassinou a esposa e depois se suicidou não me parece uma prestação de serviço, muito menos visiona um bem estar coletivo, parece-me mais uma oportunidade de chocar o público hipersensível e conquistar audiência.

Há casos mais inoportunos ainda, quando o próprio jornalismo perde de vez sua própria “referência cientificamente jornalística” e começa a se utilizar da ética utilitarista no chamado jornalismo de entretenimento. Câmeras escondidas, invasão de intimidade, escutas telefônicas, gravações não autorizadas, jogo sujo em nome do furo, são exemplos de como a máxima do utilitarismo pode ser usado sem critérios para conseguir algo que, de uma forma ou de outra, sirva ao coletivo. Digo de uma forma ou de outra, porque cada um sabe como uma fofoca poderá ser aproveitada em sua vida, e o jornalismo sempre toma esses temas como informação que interessará a alguém, e é por isso que o veiculará sem culpas.

Concluo, dessa forma, que o perigo da ética utilitarista no jornalismo cresce na proporção em que se perdem totalmente os critérios de noticiabilidade, mesmo que coerentes com o gosto contemporâneo do público. O utilitarismo não é de todo mal. Na teoria, inclusive, parece ser o mais sensato e justo a se fazer. Mas, há de se considerar o vínculo quase que vital existente entre o mercado e o jornalismo. Poder-se-ia dizer até que o jornalismo segue mais uma “ética mercadológica capitalista” travestida de utilitarista. E assim, no final, podemos até desintegrar a atmosfera nociva que este texto assentiu ao utilitarismo, recolocando toda a responsabilidade –ou falta dela- na submissão comunicacional ao sistema econômico. A ética utilitarista é digna, mas nas mãos desse jornalismo de hoje, é deveras arriscada.

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Expedição no Canteiro Central: buscando símbolos secretos na cidade

>> 19 de setembro de 2009

Nota: as impressões abaixo não têm a intenção de desmistificar, julgar, criticar ou apontar nenhum tipo de crença de forma pejorativa ou discriminatória. Não há juízo de valor acerca da Maçonaria, sociedades ou seitas secretas nem sobre seus possíveis rituais. O que segue nada mais é que um relato literário sobre uma observação descompromissada com fins de curiosidade.



Flavia Borges

Sempre me chamam a atenção as esculturas que brotam no espaço urbano. Detalhes de pedras misturados ao resto de concreto da cidade que passam despercebidos aos nossos olhos míopes. Acho que passei a manifestar uma nova mania: observar monumentos (às vezes, nem tão discretos) colados nos centros das cidades.

Pedras disformes, bustos, placas, sejam de mensagens desconhecidas ou homenagens a políticos, personalidades: os adornos são inúmeros, mas as intenções normalmente misteriosas ao público transeunte. É proposital.

Foi assim, que numa agradável tarde de um dia cujo lugar na semana não me recordo, resolvi passear pelo canteiro central de Teresópolis –RJ e fotografar alguns amontoados de pedras aparentemente desconexos. Apenas aparentemente, pois minha curiosidade já vinha do fato de saber que aquelas pedras eram símbolos maçons, como normalmente o são em muitas cidades mundo à fora.

A influência maçônica nos bastidores da História já é do saber daqueles um tanto familiarizados com relatos não oficiais sobre ocultismo ou coisa que o valha. Admito que a participação maçônica em Teresópolis é-me ainda objeto desconhecido, uma vez que nada encontrei de referências bibliográficas ou documentais à respeito.

Meu primeiro e único pueril contato com alguma Loja Maçônica foi de forma indireta, por volta da década de noventa, quando cursei a quarta série do ensino básico numa escola por eles “patrocinada”, a Escola Municipal Maçon Lino Oroña Lema. Na época, eu sequer andava desacompanhada de mamãe pelas ruas da pequena cidade, que dirá saber que estudava em um colégio apadrinhado por uma sociedade secreta. Sequer sabia também que era ao lado das instalações da escola que havia a tal loja. E lá ia Flavia Borges com o esquadro desenhado no alvo uniforme estudantil.

Em pleno dia de semana, uma desocupada não tem mais o que fazer.
Minha caminhada começou pela avenida popularmente conhecida como “Reta”, no sentido Vale do Paraíso – Alto. A primeira marcação avistada fica na altura da Avenida J.J. de Araújo Regadas, rua de determinada importância na cidade, mais conhecida como Parque Regadas, onde reúne-se grande número de pessoas em datas de eventos comemorativos.


Diz a placa: " No ano do jubileu de prata da Loja
Teresópolis I homenageia à XI Assembléia da Conf. da Maçonaria Simb. Do Brasil sob
a pres. de Waldemas Zveiter sSer. Grão
Mestre da G.L.E.M.J. como marco de sua
visita ___________ a cidade de Teresópolis
3 de Julho de 1979" (Ano de estréia de Kate Bush \0/)





E logo acima da placa, o explícito.



Continuando a caminhada pelo canteiro central, cercado nas margens por carros estacionados, com dificuldade cheguei ao próximo ponto. Mais adiante na mesma avenida, em frente ao Supermercado Regina, encontra-se mais um estranho monumento, cuja significação me é enigmática (e quem souber, me elucide!). Um bloco de pedra com aproximadamente 1 metro e meio, sem inscrições comuns , mas provavelmente com alguma mensagem codificada por muitos furinhos dispostos em sua base (obviamente, ignoro a pichação de liquid paper).



A todo momento, longe de mim qualquer paranóia esquisotérica, sentia-me incomodamente observada. Como já aferiram, “talvez fosse pelo olho que tudo vê!”. Ou talvez fosse pelo estranhamento daqueles trabalhadores de loja de centro da cidade, que nada compreendiam sobre meus motivos para fotografar pedaços de pedra no meio da tarde. Pensavam: “Será ela uma turista? Pesquisadora?”. Ou pensavam: “Estranho... essa criatura estar documentando os vestígios da Maçonaria em Teresópolis...”. O fato é que minha imaginação esquizofrênica escapulia vez ou outra, e me sentia a nova protagonista de aventuras a la Código da Vinci.


Voltando à realidade (ou ao que o senso comum diz que ela é), o calor era intenso, mas segui pelo mesmo caminho. Já desanimada e cansada (situação a qual alcanço rapidamente), nada mais encontrei a não ser o busto de um homem sisudo. A escultura, voltada para a Prefeitura Municipal de Teresópolis, era uma homenagem ao Sr. Feliciano Sodré, cujo nome batiza também a rua que até o momento chamei de Reta.


Encerrei naquele dia, portanto, minha caminhada até o meio da Avenida Feliciano Sodré, com muito calor e dores nos pés, pois as botas que usava não compunham figurino adequado para uma "expedição " desse tipo. Não que tenha andado muitos quilômetros, mas admito que um tênis me seria mais amigável.

Nada disso foi planejado, na verdade. Minto, a idéia era antiga, porém a execução foi de ímpeto. Após o almoço de restaurante, andar pela antiga cidadezinha respirando ar puro, para pensar na vida e desfrutar da sempre fiel solidão não me pareceu ruim. Até que lembrei que carregava a máquina fotográfica – escudereira do jornalista- e mudei minha rota. Mudança que rendeu um post.


Prólogo: meses depois, ao passar pela mesma avenida de ônibus, avistei pela janela que , há poucos metros depois do local onde parei minha “expedição”, havia um símbolo de vidro (acrílico? sei lá!) muito bonitinho e explícito e maçom, que merecia uma fotografia... Fica para uma próxima vez... Caso não haja impedimentos inexplicáveis, claro.


***


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